Se é verdade que os The Cure chamaram muito povo – 18 mil pagantes – ao Pavilhão Atlântico, não será menos exacto que uma parte significativa do público lá foi com um certo cepticismo sobre aquilo que poderia acontecer.
Os Cure, para muitos, já deram o que tinham a dar e, em 2008, pouco ou nada mais conseguem do que desencadear sensações prazenteiras de uma certa nostalgia, um certo retorno a uma adolescência cada vez mais distante no tempo. Acontece que a banda de Robert Smith acabou por surpreender e superar as expectativas dos mais cépticos. Continuam ser a um exercício de nostalgia, claro, mas convenhamos que aos primeiros acordes da resplandecente "Plainsong" (a mesma com que abriram o conceto de Alvalade em 1989), tudo aquilo se nos deparou muito mais intenso do que se esperava. A isso também ajudou o facto das condições sonoras e acústicas terem roçado a perfeição, coisa rara no Pavilhão Atlântico – aliás, já não se ouvia um som tão límpido desde os concertos de Roger Waters.
Certo é que os piores receios começaram logo a ser dissipados. E nem o facto do concerto se estender por três horas parece ter causado reacções de cansaço ou saturação. Ao que consta, o único motivo de crítica por parte de alguns fãs passou pela falta de teclados em alguns momentos.
Em 35 canções e três encores, Robert Smith soube gerir a o cruzamento de peças novas com grandes clássicos como "Just like heaven", "A forest", "Let’s go to bed", "Close to me", "Why can’t I be you?", "Boy’s don’t cry" ou, entre muitas outros, "Killing an arab" (que fechou a actuação).
Resumindo 19 anos depois da sua estreia em Portugal, os The Cure voltam, algo inesperadamente, a assinar um espectáculo de óptimos predicados, algo que não acontecera nas passagens pelos festivais dos últimos anos. Aos 49 anos, Robert Smith pode estar com uns quilos a mais mas continua com aquela pinta que sempre se lhe reconheceu: lábios esborratados, olhos submersos em negrume, o cabelo em desalinho. E, acima de tudo, continua a fazer aquilo que sempre soube: cantar e emocionar.

